Resenha: Diários da Anorexia

  FICHA TÉCNICA
 TÍTULO:  DIÁRIOS DA ANOREXIA  
 AUTOR:  Linda M. Rio e Tara M. Rio 
 PÁGINAS:  234 
 ISBN:  85-89384-33-0 
 ORIGEM:  Estrangeira 
 
 Sinopse: Tara Rio era uma adolescente comum – boa aluna, boa atleta e boa filha. Ela também sabia como manter segredos; segredos que só eram conhecidos pelo seu diário.
Sua mãe, Linda, também guardava segredos no próprio diário sobre seu casamento e suas ambições de uma vida melhor. Quando Linda descobre o segredo da filha, lutando com transtornos alimentares, finalmente elas encontram meios de se ligar uma à outra para proteger a família e mudar a vida de Tara, conseguindo sua recuperação.

 Exemplar cedido pela Editora MBooks para resenha e avaliação do   La Vie Est Ailleurs - Rafaella

Classificação:



    Diários da Anorexia é o primeiro livro de parceria que eu tenho a oportunidade de resenhar. Que livro, que história. Foi lançado originalmente em 2003 como o nome The Anorexia Diaries e em 2004 pela MBooks. É um livro bastante forte, afinal, são os diários de Tara e Linda que aparecem em grande parte da obra. Assim como uma explanação anterior ao assunto abordado no capítulo e ao seu final há um espaço chamado de "Olhando para Trás" que as duas fazem uma reflexão sobre o que foi escrito no passado. 

   O livro é dividido em duas partes. A primeira é composta pelos diários e histórias da vida das mulheres Rio. A primeira parte contém 168 páginas extremamente importantes para entender o que se passava na cabeça de Tara e seus sinais apresentados durante a doença, assim como a mãe não conseguia compreender bem o porque a filha vinha se autodestruindo. Já a segunda parte, é uma abordagem mais médica e se chama "Conselhos e comentários" que são feitos pelo especialista em distúrbios alimentares, Craig Johnson.

" Os diários de Linda e Tara oferecem ao leitor uma oportunidade incomum de ver como esse "segredo" pode se transformar em um transtorno alimentar. Raramente tenho visto uma história dessas contada com tanta honestidade e sinceridade. E, ao contrário dos retratos dramáticos de transtornos alimentares vistos em filmes e em programas de televisão, a história de Tara e de Linda Rio é um relato verdadeiro, clássico, do que pode acontecer a uma família comum." Craig Johnson

  Os dois primeiros capítulos contam um pouco sobre o nascimento do irmão mais velho de Tara, Greg, quando sua mãe estava em seu primeiro ano de faculdade e deixou os estudos para se dedicar a ele. E em 1973 Tara nasceu para fazer companhia ao irmão. As anotações começam em 1978, pois na família Rio há essa tradição de as mulheres escreverem seus sentimentos em diários. Inicialmente Tara escreve coisas boas para não esquecer, mas ao longo do livro ela começa a escrever sobre seus problemas de auto-estima e dá detalhes de como seu distúrbio alimentar a comandava. Ao início ela só se achava gorda, apesar de fazer quarto horas de natação por dia - 5 dias por semana. E tudo começou com uma aposta que ela e seu pai Louie fizeram, quem emagreceria mais. Só que essa brincadeira acabou causando sérios danos à saúde da jovem.

 25/08/89 Tara:
" A noite passada fiz algumas perguntas para minha mãe sobre bulimia e anorexia. Achei que ela já soubesse tudo o que eu estava fazendo comigo. Mas é inacreditável... como uma mãe pode não saber as coisas terríveis que a própria filha anda fazendo? "

   Primeiramente sua doença se manifestou como anorexia, ela passava longos períodos sem se alimentar com medo de engordar. Porém com a evolução de seu quadro, ela sentia a necessidade de se livrar de tudo o que ingeria - induzindo ao vômito.  Era apenas um escape que ela encontrava para suas frustrações, como se o ato de vomitar a livrasse da ansiedade. Em uma anotação ela comenta o fato de ter vomitado 12 vezes em um único dia. Largou a natação e tinha crises de depressão profunda, não saía de casa por dias. Só se levantava para ir ao banheiro e nada mais. Quando a mãe percebeu o problema - Tara havia comido pouco e ido logo ao banheiro - fez ela contar ao seu pais, porém ele não levou a sério e disse que era só uma fase. O problema piorou quando Greg foi morar fora, Tara ficava completamente sozinha em casa e isso dava liberdade para ela continuar com seus hábitos alimentares sem se preocupar. Outra pessoa que tinha bastante influencia em seu estado emocional era Mitch, seu namorado, entre indas e vindas ela se estressava e acabava descontando tudo na comida.

23/09/89 Linda:
" As coisas estão confusas e assustadoras. Sinto como se eu fosse a única que está tentando ajudar Tara a melhorar. O pai dela não está ajudando em nada. Ele se esconde no trabalho a maior parte do tempo. Por que é que essas coisas ficam sempre para as mães fazerem? Nem os médicos e as empresas de seguro de saúde estão me ajudando. E Deus sabe que Tara não está se ajudando. Por que ela não tenta? É como se para minha menina pouco importasse viver ou morrer." 

O desespero de Linda é angustiante  e a  indiferença com que Tara tratava seu problema foi o que mais me deixou mortificada. Parece que a menina preferia morrer magra do que ter saúde e uma vida longa. Sua mãe começou a dar atenção ao seu problema, colocar regras que antes não existiam, segui-la após as refeições para que ela não vomitasse. Linda parecia ser a única que entendia a gravidade do problema da filha. Levou-a a diversos especialistas e correu atrás de respostas para esse comportamento destrutivo da filha. Tara registra todos os seus sentimentos desde alegrias por estar bem com Mitch até tentativas de suicídio. Chega a xingar a mãe de vaca e diz que vai fazer ela se arrepender de ter falado que para ela se suicidar teria que fazer um corte vertical no braço.

06/10/89 Tara:
"Ele explicou que esse era o tipo mais sério de transtorno alimentar porque eu não estava deixando nenhum nutriente entrar em meu corpo. Ora, que grande novidade! Já sabíamos de tudo isso! Ah, e falou também que eu tinha prejudicado muito o meu corpo em pouquíssimo tempo. Aí, eu me senti orgulhosa; afinal, isso quer dizer que sou boa no que faço."

Um dia, depois de uma briga com Mitch, Tara fica tão deprimida que quebra o porta retratos contendo a foto de seu namorado e usa o vidro para fazer cortes profundos em seus pulsos. Como se a dor física fosse aliviar todos os anos de dor emocional inflingidos por sua família disfuncional e a falta de auto-estima.  É nesse momento, com os braços sangrando e lágrimas nos olhos que a menina decide se tratar. Ela é internada em um hospital que trata pacientes com distúrbios alimentares e vícios. Ela narra todos os doze dias em que fica lá realizando atividades para sua cura. Após o choque que foi o internamento, Tara busca se reajustar na escola e ir em suas terapias de grupo e depois de muito bater de frente com seus pais, ela aceita que está doente e precisa melhorar.

14/10/89 Tara:
" Hoje é sábado. Ontem foi tranquilo, acho. Tenho feito mais refeições de verdade ultimamente e isso está começando a me assustar. Ainda não me empanturro, mas não me sinto no controle quando me permito comer. Odeio comer. É muito difícil quando saio com alguém. Parece que toda a nossa vida social gira em torno da comida. É engraçado, mas as pessoas que não sabem do meu problema estão constantemente me perguntando: " Você não vai comer?", e eu lhes digo: "Ah, não...", e elas olham para mim com um olhar de interrogação na cara. Sei que deve parecer estranho para elas, mas é a verdade. Não quero mais comer. Só se eu realmente tiver de comer para que não briguem comigo. Acabo dizendo às pessoas que tenho problemas de estômago, então elas me deixam em paz. Na verdade não é uma mentira... Eu não vejo assim."

Por uma resolução de ano novo, Tara decide tentar não vomitar mais. Ela e sua mãe criam um código que quando a menina se sentir mal, ela só avisaria e as duas iriam andar pelo quarteirão e esperar passar  a vontade que tinha Tara de vomitar. Os anos passam e Tara vai para a faculdade, há um estramento por parte dela e de seus pais, mas ela reage bem a essa mudança e continua batalhando e tentando manter hábitos saudáveis. Um dia, ela tem uma "visão" quando estava assistindo a uma entrevista e isso tem  grande importância para sua recuperação.

17/05/91 Tara:
"Eu estava sentada ali, abismada, olhando fixamente para ela e pensando em como gostaria de ser tranquila assim, e de saber realmente quem eu era. Aí comecei a perceber que ninguém vai me salvar. Se quero levar uma vida feliz, eu sou a única pessoa que pode fazer com que isso aconteça. Não sei por que esse é um conceito novo para mim. Talvez eu estivesse mesmo esperando alguém que me "salvasse". Alguém que me convencesse de que eu era boa o suficiente para estar nesse mundo, que eu tinha valor para a sociedade. Mas esse alguém nunca existiria nem suas palavras me convenceriam de algo se primeiro eu não estiver aberta para acreditar em mim."

Meses depois, Tara sofre um atentado sexual e quando sua mãe não reage da forma que ela esperava. Ela tira forças até de onde não sabia para existir. Nesse momento ela poderia ter se entregado e voltado a descontar suas frustrações em seu distúrbio alimentar. Porém, fez o contrário. Aos poucos conseguiu superar o trauma e todos os seus problemas e superar sua doença. 

Como já mencionei, a segunda parte do livro é composta por dicas de um especialista em transtornos alimentares. Ele  mostra como os pais podem perceber que seus filhos têm problemas relacionados com a alimentação ou desvios de personalidade (depressão). Comenta que para ter sucesso na recuperação é necessário um tratamento multidisciplinar (nutricionistas, terapeutas, psiquiatras, psicólogos..) que aos poucos vão dar a estabilidade emocional que o doente tanto precisa. 

Sem dúvidas eu recomendo a leitura desse livro. Ele mostra que isso pode acontecer em qualquer família... Pessoas - mães - que estão passando por isso podem se basear no comportamento de Linda e ver o é o melhor ou pior para suas filhas, em que partes ela errou e descuidou da filha. Entretanto a leitura pode ajudar as meninas que têm problemas com a imagem corporal, assim cmo Tara tinha, elas podem perceber que não estão sozinhas nessa luta e se espelhar na jovem, que conseguiu superar tudo e ter uma boa vida depois de tanto sofrer em sua infância e adolescência. Com tanta publicidade levando as meninas a acreditar que vale tudo para ter um corpo magro e perfeito, é bom ver que a perfeição tem um lado obscuro e em alguns casos ela pode levar a morte.

10 comentários:

  1. Sua resenha tá magnífica! E triste, mas isso faz parte do universo dessa doença, infelizmente.

    ResponderExcluir
  2. Esse livro parece ser muito interessante, porque além de abordar um transtorno alimentar, o faz de uma maneira que parece chamar a atenção do leitor, já que é uma história real e intercala entre o que a mãe e a filha sentem relacionado a doença. Além de ter o olhar de um especialista em transtornos alimentares, o que com certeza pode ser muito bacana para quem não conhece a doença e quer ter mais informações a respeito. Acredito que um livro assim pode ajudar muito pessoas que vivem esse transtorno e também seus familiares.

    ResponderExcluir
  3. Esse livro mostra não só pra quem tem o transtorno como pra quem não tem as suas implicações e seus motivos, por que tem gente que acha que quem tem anorexia é por pura frescura e não é. Eu realmente gostei dessa resenha e eu vou ler esse livro pois eu gostei muito do assunto e de como ele é abordado.

    ResponderExcluir
  4. Adorei a resenha, me interessei muito pelo livro, pois anorexia é um tema polêmico, mas ao mesmo tempo, um tema desconhecido por muitos. Várias pessoas possuem essa doença e não sabem disso, há também aqueles que convivem com anoréxicos dentro de casa e não fazem ideia disso, eu fiquei super interessada, pois esse tema é um tema muito legal que conhecer, é sempre bom saber sobre ele. Enfim, eu adorei a resenha, de verdade, me fez querer ler o livro, parabéns *-*

    ResponderExcluir
  5. Esse livro parece ser muito forte, porem muito interessante! Ótima resenha.

    ResponderExcluir
  6. Passei por esse transtorno quando tinha mais ou menos 19 anos, a maioria das pessoas acham que isso se inicia porque a menina quer ser magra, e tals. Nem sempre. No meu caso, foi o excesso de responsabilidade, de uma hora para outra tive que tomar as redeas da casa e assumi sozinha toda a responsabilidade, entrei num emprego que me fez tão mal, que passava a hora do almoço trancada no banheiro e não comia nada. E assim foi começando devagarzinho, quando percebi, mal conseguia colocar uma colher de arroz na boca. Não tinha bulimia, mas fiquei magerrima. Minha mãe me levou ao medico e ele como um profissional competente que era disse que meu peso (44 kg para 1,65) estava otimo, que eu poderia virar modelo. Saimos de lá indignadas. Aos pouco, vendo o sofrimento de minha mãe e familia, fui tentando comer um pouquinho mais a cada dia, até que depois de 3 anos atingi meu peso normal, não sem ficar com sequelas: perdi 60% de minha memoria, e capacidade de raciocinio que era acima da media. Hoje depois de anos alterno fases, mas como já sou adulta, consigo identificar melhor as coisas e n deixo fugir do controle. Nesse mes perdi 5 kg, então já estou me vigiando...gostaria mto de ler os livros. Gosto de saber a forma como os autores abordam o tema, que as vezes é tão deturpado, que tenho vontade de rir, ou chorar. Só quem já passou sabe. Ah. Otima iniciativa sua de sortear esse tipo de livro. É mto importante. Bjksssss

    ResponderExcluir
  7. Gostei, esse é o tipo de livro que faz refletir bastante.

    ResponderExcluir
  8. Esse é um assunto que com certeza tem que ser divulgado e propagado,pq toda forma de ajuda e conscientização é bem-vinda...e pelo que percebi de sua resenha, esse livro em forma de diário é um conceito inteligente e bem detalhista,nos mostrando assim a mente de quem sofre a anorexia.
    Com certeza quero ler. Parabéns pela resenha.

    bjs

    bjs

    ResponderExcluir
  9. Ainda não conhecia o livro, mas fiquei com muita vontade de lê-lo também. Nunca li nada que abordasse esse assunto, distúrbios alimentares e achei muito interessante. Parece ser mesmo um livro com estórias fortes, mas que devem trazer mensagens muito importantes, além das dicas para quem sofre e para quem tem alguém que sofre destes distúrbios na família. :)

    ResponderExcluir

Quer deixar uma dica ou sugestão? Comente e me deixe feliz.

Para que eu possa visitar seu blog deixe um comentário com o nome do blog e eu entrarei em seu perfil. Ou use a opção Nome/URL. Por favor não coloquem links nos comentários porque o blogger considera como spam.

Agradeço a visita!