A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Repleto de referências da vida do autor – entre elas, a tão marcada paixão pela cultura pop e o TOC, transtorno mental que o afeta desde a infância –, Tartarugas até lá embaixo tem tudo o que fez de John Green um dos mais queridos autores contemporâneos. Um livro incrível, recheado de frases sublinháveis, que fala de amizades duradouras e reencontros inesperados, fan-fics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses.
"Naquela noite, enquanto eu jantava com minha mãe na frente da TV, continuei pensando sobre o caso. E se eles realmente nos dessem uma recompensa? Sem dúvida era uma informação útil que a polícia não tinha. Talvez Davis passasse a me odiar - se algum dia descobrisse -, mas será que não era bobagem me importar com o que um garoto qualquer do Camping da Depressão pensava de mim?" Página 77
Tartarugas Até Lá Embaixo é um dos últimos lançamentos da Intrínseca e a editora enviou um kit de divulgação da obra para os parceiros e, assim como em outras ocasiões, o blog está participando da Semana Especial que desta vez é com foco no lançamento de John Green.
Confesso que o autor não é um dos meus favoritos e apesar de ter gostado bastante de Quem é você, Alasca? não havia me conectado com nenhuma de suas obras até agora, porém Tartarugas Até Lá Embaixo mudou a minha opinião sobre ele e esta obra por ser tão pessoal acabou me deixando ainda mais impressionada com a narração, já que Green abordou de uma forma delicada sobre distúrbios mentais, mas ao mesmo tempo deu material para os leitores pensarem e se questionarem sobre o que é apresentado durante a leitura.
Aza Holmes é uma garota de dezesseis anos, após a morte acidental de seu pai é jogada em seus pensamentos mais obscuros, vive com a mãe - uma professora que vive em função do bem-estar da jovem. Quando sua melhor amiga Daisy descobre que uma recompensa será dada a quem ajudar a polícia a encontrar um homem rico que está foragido, as garotas se aproximam de Davis - o filho do desaparecido, que frequentou um acampamento com Aza anos atrás -. Apesar de fazer tratamento para sua ansiedade, Aza se questiona se os remédios não a estão transformando em outra pessoa e frequentemente se vê como apenas um personagem em sua vida, seus pensamentos surgem em um turbilhão e nada em sua vida faz sentido.
Por outro lado, Daisy e Davis buscam compreender o que Aza sente e a forma como se expressa, porém é visto que a única pessoa que acompanha o que a jovem sente é a sua mãe, dando-lhe forças para enfrentar o que se passa em seus pensamentos. O livro é interessante porque além de ter a história acerca do desaparecimento de Russell Pickett, o autor dá margem para os leitores entenderem o que se passa na cabeça de uma garota que não consegue controlar seus impulsos e por mais que tente não pode ter uma vida normal, como é o caso de Davis, Daisy e até mesmo a própria mãe da protagonista. Este é um livro que irá conquistar os leitores que lutam contra doenças mentais e mostrar aos que não as têm a importância de oferecer suporte e não julgar aqueles que convivem diariamente com um distúrbio.
"Eu queria dizer a ela que estava melhorando, porque essa é a narrativa esperada quando se trata de doenças: um obstáculo que você superou, uma batalha que venceu. Doença é uma história contada no pretérito." Página 85
John Green fez um belíssimo trabalho em Tartarugas Até Lá Embaixo e como leitora não esperava muito da leitura, já que apesar de ter lido inúmeros livros que tratam de distúrbios mentais, nenhum conseguiu me convencer, porém ao finalizar a leitura encontrei nos agradecimentos algo que clareou meus pensamentos: o autor sofre do mesmo mal que a protagonista, por isso o relato parece ser tão real. Como uma pessoa que batalha diariamente contra a ansiedade, vi em Tartarugas Até Lá Embaixo um relato de superação e a forma com que a protagonista enfrentou os altos e baixos da vida mostraram que há sim esperança para todas as situações, por mais que as coisas pareçam não ter saída.
Tudo neste livro se conecta, desde a capa com a espiral até o nome que só será apresentado ao leitor quase ao final do livro, mas que fará total sentido considerando a obra como um todo. A diagramação está ótima e o livro trabalha bastante com mensagens de celular, estas que estão dispostas em evidência, os capítulos são curtos e bem divididos - tornando a leitura ainda mais fluida. A obra é bem curtinha, li em apenas um dia, mas é brilhante. Sem dúvida este é um dos melhores livros que li em 2017 e tenho certeza que uma bela ressaca literária está por vir, já que duvido que encontrarei um livro tão bom quanto Tartarugas Até Lá Embaixo em um futuro próximo.
"Eu sentia a tensão no ar e sabia que ele estava tentando descobrir como me deixar feliz de novo. O cérebro dele girava alucinadamente junto com o meu. Eu não conseguia me fazer feliz, mas conseguia fazer as pessoas ao meu redor infelizes." Página 150