Resenha: 3096 dias - Natascha Kampusch

Sinopse: Natascha Kampusch sofreu o destino mais terrível que poderia ocorrer a uma criança: em 2 de março de 1998, aos 10, foi sequestrada a caminho da escola. O sequestrador - o engenheiro de telecomunicações Wolfgang Priklopil - a manteve prisioneira em um cativeiro no porão durante 3.096 dias.
Nesse período, ela foi submetida a todo tipo de abuso físico e psicológico e precisou encontrar forças dentro de si para não se entregar ao desespero.
Agora, pela primeira vez, Natascha Kampusch fala abertamente sobre o sequestro, o período no cativeiro, seu relacionamento com o sequestrador e, sobretudo, como conseguiu escapar do inferno, permitindo ao leitor compreender os processos de transformação psicológica pelos quais passa uma pessoa mantida em cativeiro, sofrendo todo tipo de agressão física e mental imaginável.
Classificação:



" Pouco depois, essa tensão entre atenção e negligência, que minava minha autoconfiança, estendeu-se aos parentes mais próximos. O mundo da minha primeira infância começou lentamente a desmoronar" Pág 20




Os primeiros capítulos da obra revelam a infância conturbada da pequena Natascha. Além de ter os pais separados - o que ajudou na sua baixo-estima - na escola era deixada de lado pelos professores e colegas. Em parte do livro ela diz que foi essa cobrança da mãe para que ela não fosse uma criança fraca, que foi o que fez ela aguentar firme e superar o que aconteceu. Ela conta como foram seus primeiros anos da pré escola até o dia em que foi sequestrada aos 10 anos de idade.
Dia que tudo levava a crer, seria um dia normal, ela saiu de casa sem se despedir da mãe - era o primeiro dia que ela iria sozinha para a escola, o que significava independência aos olhos infantis dela - como ela mesma escreveu: afinal, o que poderia acontecer? Ela comenta que via nos noticiários crianças com sua idade os até mesmo menores sendo sequestradas e estupradas e mortas, mas se mantinha calma pois era uma criança gordinha e "não muito bonita" como sua mãe dizia, e por isso não parecia o perfil de criança que os sequestradores preferiam.

" Eu me sentava diante da tela com os olhos arregalados de medo. Todas aquelas meninas tinham a minha idade. O que me acalmava quando eu via suas fotos no noticiário era o fato de que eu não era a menina loura e delicada que os sequestradores pareciam preferir. Eu não tinha a menor ideia de como estava errada" Pág 32

Em 1998, quando Natascha tinha 10 anos foi sequestrada. A caminho da escola, sendo mantida em cativeiro por mais de 8 anos. Exatamente 3096 dias. Ao início o sequestrador a tratava o melhor possível. Uma conversa dela com o engenheiro é interessante, quando ela pergunta se ele iria violentar ela e ele responde: Claro que não, você é muito nova. Ele a alimentava todos os dias e deixava ela brincar no cativeiro. Mas com o passar dos anos, isso começa a mudar. Priklopil começa a se tornar um homem violento, a garota mantém um diário em cativeiro e em um ponto da obra ela descreve as surras que levou durante a semana. Ela comenta que em uma semana ela levou mais de 200 surras.
O que me deixou mais impressionada foram as datas, era justamente na semana do meu aniversário de 15 anos (25 de setembro de 2005) e enquanto eu estava reclamando que não teria festa ou se ganharia tudo o que pedi, essa menina estava sofrendo as mais violentas punições só por falar quando o sequestrador não deixou ou por até ser "muito lenta". Ela era a escrava dele, realizava os trabalhos pesados em troca de sua vida. Ela conta que em dois momentos pensou em desistir e tentou se suicidar, porém o sequestrador a puniu. Ele a controlava por meio das surras diárias ou por causa de comida, possivelmente Priklopil tinha anorexia e transferiu a doença para Natascha. Ela chegou a pesar menos do que tinha antes de ser sequestrada, chegando ao nível de desnutrição.
Nos últimos anos do cativeiro, o sequestrador começou a deixar Natascha sair de casa - acompanhada dele - eles até chegaram a ir esquiar. Mas ele a controlava dizendo que iria matar qualquer um que soubesse ou percebesse que ela era Natascha (apesar de ele estar a chamando por outro nome, se eu não me engano era Maria). Por causa desses bons momentos com o sequestrador ( as viagens, quando ele a dava comida e pelo simples fato de não a ter matado) ela começou a ver que ele tinha um lado "humano" não era completamente ruim e isso causou nas pessoas uma revolta, até porque ela não ficou como a pobre menina que foi sequestrada e sim foi batalhar por sua vida, gerando um certo desconforto na sociedade que deu a ela o rótulo da garota sequestrada e agora portadora da Síndrome de Estocolmo. Ela até argumenta que a vida não é preto no branco e sim, há nuances de cinza e é isso que o sequestro dela foi. Não foi bom ou ruim, foi algo intermediário.
Em 2006, por um momento em que ela ficou sozinha, conseguiu fugir. Mas não foi o que ela achava, por estar com poucas roupas já que o sequestrador a fazia trabalhar semi nua para evitar que ela fugisse. Ela correu até achar alguém para pedir socorro e horas depois a identificaram. Porém a vida de Natascha nunca mais foi a mesma...

" - Natascha! Natascha! - ouvia de todos os lados.
Amparada por dois policiais, caminhei até o carro. A imagem das pernas brancas, cheia de hematomas, debaixo de um cobertor azul, revelando apenas uma faixa do vestido laranja, percorreu o mundo. " Pág 215


Sem dúvidas é um dos melhores livros que eu li. Não por ser cheio de história e floreios por parte do autor. Mas por ser um desabafo. Uma lição de vida. Ela soube retratar muito bem tudo o que sentia ou sofria nos anos em que ficou presa. Quando o sequestrador a levou após anos para fora do cativeiro que estava muito escondido, ninguém imaginaria que por aquele buraquinho e aquele túnel levariam a um quarto... Enquanto muitos reclamam que não conseguiram a tal promoção, ou não conseguiram dinheiro ou permissão dos pais para sair, essa garota aguentou firme e sempre achou que sairia viva. E ela sabia, que somente um dos dois sairiam com vida. A parte mais emocionante - ao meu ver - é quando ela descreve o "encontro" da Natascha criança e a Natascha adulta" a primeira, fraca e indefesa, e a adulta que teria força o suficiente para lutar com o sequestrador e fugir para a liberdade. É um livro forte. Só que vale a pena, eu recomendo a leitura.



" Ao escrever este relato, tentei encerrar o capítulo mais longo e sombrio da minha vida. Sinto-me aliviada, porque pude encontrar palavras para o que considero indescritível e contraditório. Rever tudo em minha mente, em branco e preto, me ajuda a olhar para o futuro com confiança. O que vivi me dá força - sobrevivi ao cativeiro no porão, fugi e permaneci de pé. Sei que posso viver minha vida em liberdade também. E essa liberdade começa agora, quatro anos depois do dia 23 de agosto de 2006. Somente agora, nestas páginas, posso deixar o passado para trás e dizer verdadeiramente: Estou livre."

Página 225 livro 3096 dias - Natascha Kampusch

3 comentários:

  1. EXCELENTE resenha! esse livro esta na minha listinha há tempos :) muito bom!
    Parabéns pelo blog.
    http://www.livrosleituraseafins.blogspot.com.br/

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  2. Acabei de ler agora, estou realmente surpreendida, mas me identifiquei muito com Natascha, o medo, a prisão interna, a força diária que ela tirava de si mesma, a força que tirava de si, a imaginação, o medo, o medo de tudo e todos, o se reprimir ao toque de pessoas amigáveis, tem coisas que ainda hoje não consegui me livrar, vivi em uma espécie de cativeiro livre, no convívio com minha mãe, sai de casa com 14 anos e ao contrário de Natascha até hoje tenho de ganhar a vida no grito, quando sai de meu "cativeiro" não tive ninguém me fazendo perguntas ou com olhares amáveis, as pessoas me olhavam com uma mescla de dó e desconfiança. Me viam como mentirosa ou como alguém que vivia entre a realidade e a fantasia que eu mesma criara para me proteger... estou ainda absorvendo tudo que li. Esta menina é admirável e o livro é fantástico e muito bem escrito, de uma simplicidade incomum e muito claro em detalhes. Estou estupefata, a violência sofrida por uma criança, psicológica e fisicamente deixa marcas eternas em nossas vidas, seja em cativeiro, violência doméstica, na escola, a dor e a repressão da criança exatamente na fase em que seu caráter está sendo formado. Não dá simplesmente para apagar com uma borracha e achar que tudo foi apenas um sonho ruim.

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  3. É admirável o fato dela ter conseguido escrever esse livro, ter conseguido expressar em palavras tudo o que viveu e sentiu durante os anos em que esteve em cativeiro, e não deve ter sido fácil, porque, provavelmente, ao escrever, deve ter revivido tudo o que passou. Deve ter sido realmente complicado lidar com esses sentimentos, que, para ela, parecem ser contraditórios, como ela mesma disse, a vida não é preto e branco, mas há nuances de cinza. Realmente tocante, sua resenha!

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