Resenha: A garota que tinha medo - Breno Melo

Editora: Editora Schoba
Ano: 2013
Páginas: 252



Diagnosticada com a síndrome do pânico, tudo o que Marina deseja é encontrar um lugar confortável neste mundo. Numa narrativa em primeira pessoa, detalhada e realista, Marina nos expõe sua vida amorosa e sexual, universitária e profissional, religiosa e familiar. Psiquiatras e psicólogos fazem os papéis de heróis neste livro tão impactante quanto revelador, que tem suas partes de amizade e amor ao próximo. Como não se emocionar com Péqui ou não se apegar ao veterano de guerra que cuida de Marina? A agorafobia é outro tema abordado de maneira tocante nestas memórias. Um drama original, escri- to em linguagem incrivelmente acessível, para quem deseja conhecer a síndrome do pânico, seus possíveis desdobramentos em nossas vidas e aqueles tratamentos mais famosos. Um romance moderníssimo, humano e esclarecedor.


Classificação:     



"Minha mente estava acelerada, meus pensamentos eram confusos. Eu havia perdido o controle sobre mim mesma, mas estava consciente de tudo. Era como estar sonhando e ter consciência do sonho, sem poder intervir. Se ao menos eu tivesse perdido a razão ou desmaiado, teria escapado desse conjunto de sensações horríveis." Página 38


A garota que tinha medo foi a leitura que despertou o melhor e o pior em mim que já haviam sido esquecidos, ao menos tentado ser esquecidos. Essa obra resumiu tudo o que senti nos últimos quatro anos da minha vida. Não, eu não tenho a mesma doença que a protagonista, mas tenho uma enfermidade semelhante.

No final de 2009 fui diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada e que, em casos extremos, dá vazão a ataques de pânico. O primeiro sintoma ansioso que tive foi justamente um ataque de pânico na sala do cursinho pré-vestibular com outros 300 alunos de testemunha, não lembro ao certo como saí da sala a não ser que pedi ajuda para uma menina que não conhecia e ela me levou até o diretor, que para minha sorte já estava acostumado com descontroles deste tipo. A única característica que difere o meu momento nada glorioso no cursinho e os ataques que Marina tinha foi a de que eu passei por tudo sem dar uma palavra, já os da nossa protagonista eram extremamente barulhentos com direito a gritos e violência. 

Já fui aconselhada a não expor meus problemas em redes sociais, mas senti que não seria sincera com vocês leitores ao tratar este livro como uma pessoa leiga, já que conheço todas as sensações que Marina teve ao longo de sua vida. No Skoob acabei me deparando com a resenha de outra garota que se identificou com a protagonista e não é raro encontrar pessoas que sofrem com doenças psicossomáticas, mas mesmo assim a sociedade ainda é intolerante com pessoas que sofrem desse mal.  


"Minha existência sempre havia sido banal e discreta, sem grandes dramas, até que um vendaval, vindo de não sei de onde, virou-a de ponta-cabeça. Me tornei a protagonista de uma história que eu não queria interpretar, passei a ser o centro das atenções e a me sentir humilhada. Nunca mais fui a mesma depois do primeiro ataque, temendo as pessoas ou os lugares. Tinha medo de passar por outros ataques, que poderiam acontecer a qualquer momento." Página 120


Marina é uma jovem ativa que vive para estudar, dispensa sair com os amigos, passear em parques e shoppings para ficar enfurnada em seu quarto estudando para o vestibular. Seu sonho é se tornar uma jornalista e todas as suas forças estão voltadas para entrar na Universidade Católica. Sua mãe é a pessoa que mais a pressiona para entrar na faculdade e concentra todas as suas expectativas em Marina, fazendo com que a jovem se pressione mais do que o necessário para a admissão na UC. 

Ao conhecer Julio pela internet a jovem que tinha dezoito anos na época começa a se relacionar com o rapaz que não sabia morar em seu condomínio. Quando é aprovada no vestibular e enfim poderia descansar, Marina acabou se envolvendo com drogas e seu namoro ficou mais sério. Alguns dias depois do início das aulas a jovem teve uma overdose e foi salva por alguns professores da UC, como punição ela e suas amigas precisaram ajudar na organização da biblioteca da universidade. Até então Marina ignorava os ataques de pânico, mas estes começaram a se tornarem frequentes. Pequi, sua melhor amiga, era uma das únicas pessoas que não a considerava louca e ajudou a jovem a entender seu problema que apesar de ser mental, atingia seu corpo das mais variadas formas. 


" - Então sou como Jó nas patas de Satanás? A síndrome pode me atormentar até o infinito, pode me impedir de fazer as coisas de que gosto, pode me humilhar diante de meus amigos, mas não pode me matar?" Página 153


Breno Melo trata da Síndrome do Pânico como se fosse Marina, uma jovem de 18 anos que tinha tudo para ter uma vida tranquila, mas esta calmaria foi assolada por um vendaval e nada agora pode ser chamado de normal. O autor mostra ao leitor como uma doença que a princípio é inofensiva, já que não pode matar, mas que faz com que a pessoa sofra mais danos do que uma doença "normal". Não consigo entender como as pessoas ainda tratam doenças de fundo psicológico como loucura, afinal, o autor apresenta que as pessoas que tratam de distúrbios psicológicos com remédios de tarja vermelha, já algumas pessoas consideradas "normais" tomar calmantes e remédios para dormir de tarja preta. Cadê a lógica? 

Não vou me aprofundar na doença em si, mas na obra que é tocante de muitas formas. Tenho certeza que no princípio uma pessoa que não teve qualquer contato com a doença vai estranhar e classificar a protagonista como fresca (sou tratada assim até hoje aqui em casa), mas ao longo da obra o autor mostrará o quanto esta doença assim como tantas outras de fundo emocional podem se tornar destrutivas e minar todas as áreas da vida do doente, fazendo com que assim como Marina percam anos na faculdade, seu trabalho e relacionamentos afetivos que até então consideravam estáveis. Recebi um e-mail da editora Schoba e logo me interessei pelo lançamento, como vocês leitores devem ter percebido sempre trago leituras alternativas sobre doenças e assuntos pouco debatidos por aí. Em outro ponto que me identifiquei com a protagonista, além de ter perdido amigos e um semestre na faculdade por conta da doença, foi o gosto pela leitura e não é raro vermos menção a Nicholas Sparks e Meg Cabot nesta obra e assim como eu, Marina alimenta um blog literário que aos poucos foi dando margem para outros assuntos como, por exemplo, sua doença. Para conhecer um pouco mais sobre a história de Marina, não deixe de ler A garota que tinha medo, publicado em 2013 pela Schoba e você verá que uma linda história pode sim ser apresentada em apenas 250 páginas. 



"Não podendo viver para coisa alguma devido à síndrome, passei a viver apenas para vencê-la. E cada dia sem um piripaque já era uma vitória." Página 179


10 comentários:

  1. Rafaella, amei a resenha! Muito bem detalhada e trouxe para os leitores as sensações que partilhou com Marina. Acho que, de alguma forma, a maioria das pessoas que sofrem com a ansiedade se encontra um pouco na protagonista. Fico feliz que tenha apreciado a leitura. Um abraço!
    Luciana

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  2. Que magnifico, eu preciso ler esse livro.

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  3. Oi Rafaella! Sabe, preciso desabafar aqui, que achei a sua resenha pelo twitter da própria editora, enquanto estava sentada esperando a ser atendida pela psicóloga. Pois é, fui diagnosticada à pouco tempo (menos de um mês) com o transtorno de ansiedade generalizada. É assustador. Tive uma crise de pânico muito forte no sábado, e foi... terrível. Foi muito bom ter encontrado sua resenha, os trechos do livro descreveram tudo o que eu já senti, e sinto ainda. Espero ter a oportunidade de lê-lo em breve.

    Beijos, Lu.
    http://gimmeflowers.blogspot.com.br/

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    1. Bom dia, Luana.

      Sei bem o quanto é assustador, principalmente no início já que é tudo novo e a maioria das pessoas não acredita no que você sente. Como eu demorei para buscar ajuda médica tive um tempo maior de tratamento, mas você vai ver que com o tempo tudo volta ao normal. Pode ser difícil conviver com essa doença, mas logo você vai perceber que não pode deixar de viver por conta dela.

      Se você quiser qualquer tipo de ajuda ou apenas desabafar, pode contar comigo. Já passei por tudo isso e posso dar a opinião de quem realmente vivenciou todas as nuances da ansiedade.

      Não recomendo que você leia a obra agora, pois o seu diagnóstico é recente e primeiro você deve saber o que sente para ter um tratamento adequado, pois se você conhecer os sintomas da Marina é capaz que seu corpo comece a reagir e agrave o quadro (não sei se isso realmente é certo, afinal, não sou médica), mas é melhor não dar margem para seu corpo se manifeste assim. Então, leia assim que a poeira passar, pois será uma leitura sem igual.

      Na barra lateral do blog estão minhas redes sociais e, se você quiser, te passo meu e-mail. O importante é não desistir e saiba que isso - algum dia - fica mais fácil de suportar. Força, Luana.

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    2. Obrigada Rafaella, é muito bom saber isso de alguém que já passou pela mesma coisa que estou passando agora. Realmente, as pessoas não acreditam, por sorte os meus pais viram a gravidade disso e estão me ajudando muito, o que faz as coisas ficarem um pouco menos difíceis. Vou seguir seu conselho e lê-lo apenas quando me sentir menos assustada, pois não sei mesmo o que me espera, comecei o tratamento agora, e as coisas parecem meio complicadas de assimilar ainda. Irei te acompanhar nas redes sociais, e se você não se importar em me dar alguns conselhos (por que no momento, ainda está o baque da descoberta), ficarei muito, mas muito grata.

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  4. Nossa, que ponto delicado. Essa é uma ferida que atinge muitos brasileiros e que a sociedade "normal" acredita ser loucura. O pior de tudo é que as pessoas tratam a Síndrome como frescura ou mera exibicionismo da pessoa que sofre. Onde já se viu desmentir algo que já foi diagnósticado?
    Eu tenho uma tia que tem crises de ansiedade generalizada, mas nunca cheguei a ver ela nas crises.
    Sinto que deve ser agoniante ter essa Síndrome do Pânico. Eu mesmo provei um pouco dessa sensação de paranóia semana passada quando eu e minha prima fomos assaltados. Na hora, tive sangue frio, mas quando cheguei em casa decidi não sair de casa. E nas duas ocasiões que sai ficava olhando para os lados acreditando que o ladrão estaria me perseguindo. Mas agora já estou tentando sair sozinho e enfrentar esse meu medo, mas sei que não é a Síndrome e isso me conforta.
    A sua resenha está maravilhosa, Rafaella. Muito obrigado por compartilhar essa obra conosco. Vou tentar ler o livro em breve e saber mais sobre a Síndrome. Bjs :*

    http://peregrinodanoite.blogspot.com.br

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  5. Um doença que rege minha vida. Minha sina, minha menina. Vivo por ela e ela vive em mim.

    http://umdiadealice.blogspot.com.br/

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  6. Eu gosto d livros assim. Já na sinopse m interessei e espero lê-lo- em breve. Parabéns pela sua coragem por continuar vivendo, mesmo com todas as dificuldades q só vc sabe o quanto são difíceis. T desejo muita força e coragem.

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  7. Um excelente livro, mostrando um pouco da realidade de muitas pessoas, vou ler! Obrigada pela dica!

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  8. Não conheço esse livro, mas gostei muito da forma como você o abordou na sua resenha. Por eu ser da área de Psicologia e conhecer esses transtornos, gosto de saber de livros que os abordam, de alguma forma. E esse livro, provavelmente, deve ajudar pessoas que sofrem dessa síndrome e pessoas leigas, para que possam conhecer e se aprofundar melhor sobre o assunto. As pessoas realmente costumam rotular indivíduos que sofrem de ansiedade ou de qualquer outro transtorno do gênero, justamente por não conhecerem ou por não verem a importância das questões psicológicas na vida da pessoa. Acho que a sociedade ainda tem que mudar em muitos aspectos e as pessoas tem que aprender a se respeitarem e terem o interesse de conhecer umas as outras, principalmente em seus aspectos mais profundos.

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